A cerimônia do Instituto de Geociências acrescenta mais um diplomado ao projeto Diplomação da Resistência, iniciativa da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento e da Pró-Reitoria de Graduação
Por Erika Yamamoto (Jornal da USP)

No dia 5 de dezembro, o Instituto de Geociências (IGc) concedeu um diploma honorífico ao estudante Sidney Fix Marques dos Santos, desaparecido durante a ditadura militar brasileira.
A solenidade, realizada no pátio do Instituto de Geociências, integra o projeto Diplomação da Resistência, que já havia concedido diplomas honoríficos de graduação a 33 estudantes da USP vítimas do período, incluindo dois outros estudantes do IGc, Alexandre Vannucchi Leme e Ronaldo Mouth Queiroz. Com a homenagem a Sidney Fix Marques dos Santos sobe para 34 o total de estudantes diplomados.
“Para a USP e para o IGc, esses atos têm um significado profundo. A Universidade não existe apenas para produzir conhecimento, mas também para enfrentar seu próprio passado, reparar injustiças e afirmar de maneira pública os valores que fundamentam a vida acadêmica: a liberdade, a verdade e o compromisso com os direitos humanos. Sidney e Ronaldo estudaram aqui, caminharam por nossos corredores, sonharam com o futuro e lutaram por um país mais justo. Hoje, ao reconhecermos oficialmente a violência que sofreram, reafirmamos que pertencem a este instituto e não serão esquecidos”, afirmou a diretora do IGc, Marly Babinski.
Para a pró-reitora adjunta de Inclusão e Pertencimento, Miriam Debieux Rosa, “a importância dessa cerimônia é preservar a memória desses jovens e registrar na história do País o que foi a ditadura. É um gesto de reparação e também de prevenção, que nos alerta sobre os perigos da violência institucional e da opressão. A memória é a primeira linha de defesa contra o autoritarismo e contra a repetição dos horrores do passado. Em uma democracia, a verdade não pode ser uma construção seletiva, ou uma conveniência de um grupo político, mas sim um compromisso. A diplomação é um ato de reafirmação da nossa responsabilidade como universidade e como sociedade de enfrentar as injustiças e garantir que essas práticas não se repitam”.
Na cerimônia, também foi realizada a retificação da causa mortis na certidão de óbito de Ronaldo Mouth Queiroz, que passou a ser de “morte não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro, no contexto da perseguição sistemática à população identificada como dissidente política do regime ditatorial instaurado em 1964”. Estudante de Geologia e líder estudantil, Queiroz foi morto a tiros por uma equipe do Departamento de Ordem Política e Social (Dops), em 6 de abril de 1973. Ele foi um dos homenageados na primeira cerimônia do projeto Diplomação da Resistência, realizada no dia 15 de dezembro.
“Essas histórias se entrelaçam como expressões de uma mesma esperança, a esperança de uma geração que ousou imaginar um país mais livre, plural e justo. São trajetórias que nos interpelam e convocam a Universidade a refletir continuamente sobre seu papel diante da dor, da memória e da responsabilidade institucional. O projeto Diplomação da Resistência transforma o diploma, símbolo do mérito acadêmico, em um ato político de reparação, de reconhecimento e de resistência, reafirmando que a Universidade é, e deve permanecer, um território de liberdade, dignidade e defesa intransigente dos direitos humanos”, ressaltou o pró-reitor adjunto de Graduação, Marcos Neira.
Participaram da solenidade o pró-reitor de Graduação, Aluisio Segurado; a irmã de Sidney Fix Marques dos Santos, Leda Mariana Marques dos Santos Tronca; o presidente do Centro Acadêmico do Instituto de Geociências, Vitor de Melo Rodrigues; os geólogos Adriano Diogo e Iara Weissberg; além de amigos e familiares dos homenageados.
O homenageado
Sidney Fix Marques dos Santos nasceu no dia 20 de janeiro de 1940, na cidade de São Paulo, filho de Cherubim Marques dos Santos e Suzana Olga Fix Marques dos Santos.
Em 1959, prestou vestibular para o curso de Geologia da USP e foi aprovado entre os primeiros colocados, o que lhe rendeu uma bolsa de estudos da Petrobras. Cursou o primeiro ano em 1960, mas abandonou a faculdade para dedicar-se integralmente à militância e não chegou a concluir o segundo ano do curso.
Dirigente do Partido Operário Revolucionário Trotskista (Port), Sidney foi o editor responsável pelo jornal Frente Operária e passou à clandestinidade após o golpe de 1964. Foi indiciado pelo Inquérito Policial Militar (IPM) que investigou as atividades políticas realizadas no 2º Grupo de Canhões Antiaéreos de 90 mm, em Quitaúna, na cidade paulista de Osasco, onde o partido tinha contatos. Sua prisão preventiva foi pedida em abril de 1965, sendo essa punição extinta, posteriormente, em setembro de 1969.
Seus direitos políticos foram cassados por dez anos em 27 de janeiro de 1967, conforme condenação pelo artigo 15 do Ato Institucional nº 2 (AI-2). Após a imposição do Ato Institucional nº 5 (AI-5), em dezembro de 1968, a militância política tornou-se ainda mais perigosa no Brasil. Sidney e sua esposa Leonor Elvira Cristalli exilaram-se na Argentina no ano seguinte, onde ele trabalhou como programador da IBM. Foi preso em Buenos Aires, em 1976. Segundo familiares, Sidney foi capturado por um grupo de dez homens, em trajes civis, e nunca mais foi visto.
O desaparecimento de Sidney foi reconhecido pela Secretaria de Direitos Humanos, subordinada ao Ministério da Justiça, Segurança e Direitos Humanos da Argentina e registrado na Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas (Conadep). Não foi apresentado requerimento sobre o caso à Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP).

Diplomação da Resistência
A cerimônia do Instituto de Geociências acrescenta mais um estudante ao projeto Diplomação da Resistência, que já concedeu diplomas honoríficos de graduação a 34 estudantes da USP vítimas do regime militar brasileiro.
Resultado de uma parceria entre a Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP), a Pró-Reitoria de Graduação (PRG), a vereadora paulistana Luna Zarattini e o coletivo de estudantes Vermelhecer, o projeto foi uma forma institucional de reconhecer e reparar as violências, torturas, perseguições, mortes e desaparecimentos ocorridos durante os 21 anos de ditadura. Os homenageados foram selecionados a partir das investigações conduzidas pela Comissão da Verdade da USP, que se dedicou a reconhecer e reparar as injustiças do passado.
Lançado em 15 de dezembro de 2023, o projeto teve como primeiros homenageados os estudantes Alexandre Vannucchi Leme e Ronaldo Queiroz, alunos do Instituto de Geociências (IGc) e militantes do movimento estudantil. Em seguida, foram homenageados os estudantes da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da Faculdade de Medicina (FM), da Escola de Comunicações e Artes (ECA), do Instituto de Psicologia (IP), da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo e de Design (FAU), da Faculdade de Educação (FE), da Escola Politécnica (Poli), da Faculdade de Direito (FD) e do Instituto de Física (IF).




