Encontro na EACH relembrou a trajetória de Bruna Oliveira da Silva e discutiu políticas públicas e cultura de enfrentamento à violência contra as mulheres
Por Michel Sitnik (Jornal da USP)

Com a concessão simbólica de um diploma póstumo de mestrado, a USP realizou, na última terça-feira, 9 de setembro, uma homenagem à estudante Bruna Oliveira da Silva, que foi vítima de feminicídio em abril deste ano. A cerimônia aconteceu no Auditório Azul da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH), no campus USP Leste, como parte da programação do 1º Seminário sobre Feminicídio e Violência contra as Mulheres. Bruna havia concluído sua graduação na faculdade, onde cursava seu mestrado, quando foi assassinada na rua ao voltar para casa após sair de uma estação do Metrô.
O evento foi organizado pelas Pró-Reitorias de Pós-Graduação (PRPG) e de Inclusão e Pertencimento (PRIP), em parceria com a direção da EACH.
Ao explicar a proposta do encontro, o diretor da unidade, Ricardo Ricci Uvinha, destacou que o feminicídio e a violência contra as mulheres “são mais do que estatísticas, são tragédias que se repetem todos os dias e que revelam as profundas desigualdades de gênero que ainda estruturam a nossa sociedade”. Assim, para ele, o seminário foi mais que um encontro acadêmico: “Trata-se de um compromisso coletivo. A USP deve produzir conhecimento de excelência, mas também assumir a responsabilidade de transformá-lo em políticas públicas e em ações concretas. Ao dar visibilidade às pesquisas realizadas nessa área e abrir espaço para o diálogo com a comunidade, estamos reafirmando que a ciência e o conhecimento precisam caminhar de mãos dadas com a transformação social”.

Lembrando-se de sua experiência pessoal como professor da estudante homenageada, o diretor emocionou-se: “A Bruna se destacava não apenas pela competência acadêmica, mas também pela sensibilidade, pela inquietação e o desejo de transformação”. Para ele, a homenagem foi “um ato de memória e de responsabilidade”, lembrando que a trajetória da aluna “ecoou entre nós como uma voz que não se cala”, e afirmando que pesquisas de Bruna que foram interrompidas terão continuidade.
A vice-reitora da USP, Maria Arminda do Nascimento Arruda, ressaltou a responsabilidade da Universidade em transformar conhecimento em políticas públicas que enfrentem as desigualdades de gênero, pontuando que produzir ciência de excelência não basta: é preciso que a instituição se comprometa com a transformação social. “A USP é a casa na qual essas colaborações entre a vida acadêmica, a pesquisa e as políticas públicas se realizam”, afirmou.
Socióloga, Maria Arminda também chamou atenção para a gravidade do feminicídio no Brasil, que definiu como uma “chaga social” ligada a estruturas históricas como o patriarcalismo, o patrimonialismo e a herança da escravidão. “São milhares de mulheres assassinadas todos os anos. Enquanto não conhecermos a fundo esse universo, fica difícil enfrentar. Não é só uma questão de registro, é preciso mapear e entender para produzir políticas”, disse. Ao final, destacou a diplomação simbólica da estudante Bruna Oliveira da Silva como um ato de resistência: “Que a memória da Bruna nos convoque a construir uma sociedade mais igualitária, mais equânime, para que novas Brunas não aconteçam”.

Após a leitura de depoimentos de ex-professores, o diploma foi recebido pelos pais de Bruna, Simone da Silva e Florisvaldo Araújo de Oliveira, das mãos da vice-reitora e da ministra das Mulheres, Marcia Lopes.
“Eu estou com o coração explodindo. A minha filha, quando passou no mestrado, depois de muito estudo e dedicação, me ligou e falou: ‘Eu consegui, mãe, eu voltei para a USP e vou te encher de orgulho novamente’. Nós comemoramos, eu vibrei com ela e, infelizmente, ela foi tirada de mim, tirada de nós, familiares e da instituição. Ela foi morta justamente pelo que defendia: a segurança, as mulheres, a luta contra a desigualdade social”, declarou Simone, lembrando da trajetória da filha como pesquisadora e produtora de ciência. “Sou muito grata a essa instituição e agradeço a todos vocês. Eu sei que o legado dela não vai terminar, não vai acabar, não vai parar”.
A mãe da estudante finalizou com uma mensagem: “Digam aos seus filhos que os amam todos os dias. Só Deus sabe da minha dor. Mas também estou com o coração cheio de gratidão e de orgulho, porque minha filha sempre buscou seus ideais, sempre lutou pelo que queria, sempre foi atrás. Ela nunca deixou ninguém dizer para ela: ‘Você não pode’. Ela dizia: ‘Eu posso’. E está aqui o resultado: essa homenagem para ela”.
A ministra das Mulheres ratificou a importância de a Universidade se engajar na construção de políticas públicas de enfrentamento à violência de gênero. Ela lembrou que a USP é uma referência nacional e internacional e defendeu que a ciência deve estar ligada às transformações sociais. “Eu me sinto muito bem numa universidade, porque entendo que é possível a gente sonhar, olhar o presente, entender o passado e ter a perspectiva de futuro”, afirmou.
Em seu discurso, Marcia Lopes falou também sobre a necessidade de incluir conteúdos de gênero na formação profissional. “Nós temos que incluir nos currículos escolares conteúdos obrigatórios sobre a questão de gênero. Se médicos, enfermeiros, professores e assistentes sociais tiverem essa perspectiva consolidada em sua formação, os resultados serão muito melhores”. A ministra ressaltou, ainda, a dimensão coletiva da luta das mulheres e a importância de dar escala nacional às ações: “No Brasil, não podemos nos contentar em iniciativas que atinjam mil ou dez mil pessoas. Aqui tudo são milhões. Para transformar a realidade, precisamos pensar grande e construir políticas de alcance nacional”.

Seminário
O 1º Seminário sobre Feminicídio e Violência contra as Mulheres foi voltado a discussões em torno de pesquisas relacionadas a violência de gênero produzidas na Universidade. A programação teve início com um painel sobre o cenário atual da violência contra as mulheres, com exposições de Elisabeth Meloni Vieira, da Faculdade de Saúde Pública (FSP), sobre saúde e prioridades de enfrentamento; Rosa Maria Godoy Serpa da Fonseca, da Escola de Enfermagem (EE), sobre o feminicídio como expressão extrema da violência; e a mestranda Mariana Rodrigues de Vita, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), que discutiu violência sexual em contextos de guerra e genocídio. A mediação foi feita por Ester Gammardella Rizzi, da EACH.
Na sequência, a professora Eunice Aparecida de Jesus Prudente, da Faculdade de Direito (FD), ministrou a conferência “Epistemicídio e feminicídio: contribuições interseccionais do feminismo negro”, mediada por Jacqueline Moraes Teixeira, da FSP.
À tarde, o painel sobre políticas públicas e legalidade reuniu Elizabete Franco da Cruz, da EACH, que abordou o feminicídio relacionado à gravidez; Ana Lúcia Pastore Schritzmeyer, da FFLCH, que analisou os feminicídios nos tribunais; e Júlia Sbroglio Rizzotto, egressa da Faculdade de Economia, Administração, Contabilidade e Atuária (FEA), que apresentou estudo sobre o acesso às Delegacias da Mulher e a geografia da proteção. A mediação foi feita por Julia Azevedo Moretti, da Faculdade de Direito de Ribeirão Preto (FDRP).
O último painel do dia trouxe reflexões sobre cultura de abusos e invisibilidade das vítimas. Bruna Gisi Martins de Almeida, da FFLCH, apresentou pesquisas sobre avanços e desafios relacionados ao enfrentamento da violência; Heloísa Buarque de Almeida, também da FFLCH, discutiu a violência de gênero na universidade; e Mayara Ferreira da Costa Patrão, da EACH, destacou a invisibilidade das mulheres indígenas nas políticas públicas. A mediação ficou a cargo de Christie Ramos Andrade Leite Panissi, da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto (FFCLRP).
Assista, no seguinte vídeo, à cerimônia e à íntegra dos painéis:
Texto publicado originalmente no Jornal da USP.

