Durante o Mês da Consciência Negra, encontro promovido pela Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento da USP discutiu desafios e avanços no combate ao racismo no ambiente universitário
Por Maria Eduarda Oliveira (Jornal da USP)

A Cátedra Encontro de Saberes, da Pró-Reitoria de Inclusão e Pertencimento (PRIP) da USP, realizou no dia 10 de novembro, no prédio da Reitoria, o encontro Como construir uma universidade antirracista?. Com o objetivo de promover uma cultura de fala, presença e acolhimento, a atividade, em alusão ao Mês da Consciência Negra, propôs uma reflexão sobre o papel da universidade no enfrentamento das diferentes formas de racismo na sociedade.
O evento contou com a participação de Ariana Celis, funcionária da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP e docente da Pontifícia Universidade Católica (PUC) de São Paulo, Dennis de Oliveira, professor titular da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, e Petronilha Beatriz Gonçalves e Silva, que atualmente ocupa a posição de catedrática na Cátedra Encontro dos Saberes. A conversa teve a mediação do professor Rogério Monteiro de Siqueira, da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, responsável pela diretoria de Mulheres, Relações Étnico-Raciais e Diversidade da PRIP.
Olhar
Em sua fala, a professora Petronilha chamou a atenção para o fato de que nem sempre os estudantes, professores e servidores técnico-administrativos da universidade se dão conta de que estão ajudando a construir ou combater o racismo. “Nós negros sabemos da experiência de passar por uma pessoa não negra, mesmo dentro da universidade, e essa pessoa negar teu cumprimento, ou não te olhar. Isso quer dizer que tu não estás aí”, afirmou a professora.
Para a catedrática, algumas pessoas interpretam as ações afirmativas para negros, indígenas e pessoas com deficiência como se elas estivessem roubando o lugar que seria destinado exclusivamente a um grupo social. “As ações afirmativas na universidade não são simplesmente trazer quem está fora. É também colocar em discussão que nação estamos construindo e em que sociedade queremos viver e o que queremos com esse projeto de sociedade. Então, se eu passo por uma pessoa e não gosto desse cabelo encaracolado e viro a cara, eu estou expressando um projeto de sociedade”, disse Petronilha.

Existir
“Tua cor atravessa teu posto e a tua avaliação.” Com essa frase, Ariana demonstrou como o racismo estrutural existe na universidade. Segundo ela, a cor ainda define quem adoece e quem ascende dentro da instituição. Em sua pesquisa de mestrado realizada na FSP sobre as razões do adoecimento de funcionários técnicos e administrativos da USP, entre os afastamentos por doenças mentais, 63% eram de mulheres e, entre elas, as mulheres negras eram maioria. “Quanto mais longe da estrutura de prestígio, mais perto do sofrimento”, afirmou Ariane.
Para os trabalhadores, especialmente os negros, Ariane afirma que o ambiente é marcado por relações autoritárias, assediadoras. O isolamento e a invisibilidade marcam sua condição de trabalho. “Precisamos olhar para a formação das chefias. Muito do assédio que aparece nos relatos é porque os chefes não foram formados para trabalhar com a diversidade, confundem gestão com autoritarismo e naturalizam a humilhação”, concluiu Ariane.

Acolhimento
O racismo na universidade não é um problema de comportamento isolado, mas sim, parte da formação da própria instituição, disse Dennis de Oliveira. Mas ele, no entanto, vê esses debates como um grande avanço. “Tempos atrás isso não acontecia. Trazendo essas questões, faz com que a universidade repense algumas coisas e isso é o que é importante”, comentou.
De acordo com Petronilha, é essencial que o estudo das relações étnico-raciais vá além de disciplinas pontuais: “Não importa se é no ensino de matemática, história, educação física, dança, seja lá o que for, o acolhimento ou não acolhimento está se construindo”, diz. “Não é uma disciplina, é um modo de viver e de aprender com as outras pessoas no dia a dia”, afirmou a professora.
Segundo o professor Dennis, para muitos estudantes negros e negras, esta é a primeira geração que está frequentando a universidade e por isso os coletivos negros ocupam um papel de acolhimento importante. “Esses espaços de organização dos alunos negros na universidade são fundamentais, pois têm criado um espaço de discussão e de socialização que pode fortalecer o enfrentamento de desafios”, afirmou Dennis. “A tarefa de enfrentar o racismo é grande mas não significa que a gente vai fazer nada por conta disso”, disse o docente.

